Seria esta uma irmandade secreta? Um clã de trolls que decidiu elevar o patamar da toxicidade? Quer usem bots ou não, parece que um grupo de jogadores de League of Legends (LoL) decidiu apodrecer os servidores norte-americanos do MOBA da Riot Games. E com qual objetivo?
Fazer outros jogadores perderem tempo. E honestamente, temos que admitir que a tática foi um sucesso.
A irmandade do /remake
Relatado pela primeira vez pelo usuário do Reddit Femoid, não demorou muito para que a notícia chegasse à primeira página da rede de fóruns. Jogadores ou contas norte-americanas que iniciam partidas simplesmente para desconectar e ocasionar em recriações. Com o aumento de comentários na postagem, meia dúzia de OP.GGs foram citados para ilustrar o fenômeno. E o que parecia ser uma infecção isolada se transformou em uma epidemia.
Não estamos falando de um grupo pequeno de jogadores que desconectam de partidas aqui e ali. Mas sim de jogadores que passam dias e noites refazendo jogos, apenas para perder o tempo dos outros. Precisamente, ao olhar mais de perto os OP.GGs desses jogadores, vemos que nenhum ser humano normal seria capaz de acompanhar esse ritmo de partidas. Basta dar uma olhada em Syphilis2010 e suas 246 derrotas/remakes consecutivos para perceber que esses jogadores certamente usam bots.
E não precisa ser um bot de inteligência artificial insana. Basta um clicker para entrar na fila, selecionar campeões e desconectar o cliente da internet no momento certo para que os servidores autorizem o remake.
Se tomei a liberdade de gravar um vídeo ao invés de colocar o link dos OP.GGs desses jogadores é porque algumas das contas apresentadas nos comentários do tópico original não existem mais, e tenho medo de ver todas as fontes deste artigo desaparecem. Parece que os ditos jogadores viram o post do Reddit, e se apressaram, se não para deletar as contas, pelo menos para mudar os nicks. E, de fato, uma dessas contas teria mudado o nome para "Femoid123" - como se estivesse zombando do autor original da postagem.
Se isso não é uma admissão...
Mas por quê?
Essa é a pergunta que naturalmente surge quando observamos esse fenômeno. Mas, para respondê-la, é necessário captar a sutil diferença entre Pontos de Liga (que qualificam seu "nível" na fila de classificação) e Match Making Rating (MMR), o valor oculto que vem para avaliar o nível geral de sua conta.
Dar dodge ou desconectar ocasionando um remake é punido com a perda de PdLs, mas não tem absolutamente nenhum impacto em seu MMR. Imagine um encontro entre dois grandes mestres do xadrez: se um dos dois jogadores cancelar o duelo, sua classificação ELO não mudará um centímetro. O mesmo é verdade para League of Legends - ou pelo menos essa é a suposição geral, já que a Riot Games se abstém de falar publicamente sobre MMR. Como você não jogou a partida, o algoritmo não se aplica.
Em outras palavras, durante um dodge ou remake os PdLs diminuem, mas o MMR permanece estável e uma lacuna é criada entre os dois valores. Exceto que essas duas métricas devem estar conectadas, correlacionadas - e quanto mais essa diferença aumenta, mais o sistema tenta compensar aumentando ou diminuindo seu ganho de PdLs. Isso significa que dar dodge ou forçar o remake de uma partida permite manipular o sistema para otimizar artificialmente uma escalada nas filas, por exemplo.
Mas para ganhar PdLs você precisa jogar. Se suspeitarmos que alguns jogadores usam o /remake da mesma forma que o dodge para subir nas ranqueadas mais rápido, o fenômeno que observamos está longe, muito longe de corresponder a esta técnica. Porque os jogadores/contas apresentadas no início deste artigo não buscam vencer, nunca. Seus inventários estão vazios, sua relação de A/M/A é de 0/0/0 e seus históricos de jogo mostram apenas recriações.
Não há dúvida de que o intuito é prejudicar outros jogadores, assim como todo o sistema de organização de partidas. Esta descoberta pode ser considerada alarmante. Se suspeitávamos que existiam jogadores cuja única vocação é trollar o jogo dos outros, não imaginávamos que alguns deles teriam ido tão longe a ponto de industrializar o processo.
Pelo retorno do Tribunal
Diante do que vimos, que ecoa muito claramente a "crise do dodge" que a comunidade internacional de League of Legends está passando atualmente, o veterano do Rift que sou lembra com saudade da era do Tribunal. Introduzido em 2011 e desativado em 2014, este sistema visava combater o comportamento tóxico ao permitir que os jogadores julgassem anonimamente casos denunciados por meio de uma plataforma online. Em outras palavras, você era o juiz, mas não o executor, já que a Riot obviamente se reservou o direito aplicar a punição.
O Tribunal não julgava casos de abandono de partida (AFK), que eram administrados pelo famoso "LeaverBuster", mas permitiu que a comunidade participasse ativamente da luta contra o comportamento tóxico.
O problema era que o sistema não era confiável, eficiente e nem rápido. Para cada caso você tinha que baixar o histórico do jogo, depois esperar que vários jogadores-juízes o avaliassem. Na melhor das hipóteses, gerava um sentimento de satisfação, permitindo que os jogadores se sentissem envolvidos no processo.
Mas a plataforma também tinha uma grande força que a Riot Games ainda não conseguiu substituir: a capacidade de julgar cada situação caso a caso, com o olhar de um ser humano, não de uma máquina. Atualmente, é um sistema automático que sanciona comportamentos tóxicos no Rift e, apesar das atualizações, ainda há dificuldade para detectar feeding intencional e outras atitudes consideradas tóxicas.
Quanto mais os anos passam, mais o comportamento tóxico se desenvolve, e me pergunto se a melhor solução não seria ressuscitar o Tribunal. Claro, ele deve ser atualizado, melhorado, simplificado. Mas as dificuldades de ontem, enfrentadas pela jovem Riot Games, não deveriam passar de pequenos percalços para o que hoje é um dos maiores estúdios de videogame do mundo.
Se fossem colocados tempo e energia nisso, não há uma maneira de permitir que os jogadores se envolvam, mesmo que parcialmente, na luta contra a toxicidade?
Conteúdo original de Thomas "Calo" Sauzin, do MGG França.